
Quem não se encantaria pelo menino Mihaly? Lisbeth sentiu uma forte sensação de segurança assim que o viu, apesar de toda a sua inexpressividade. Sentou-se ao lado dela e Lisbeth não hesitou em confiar a ele tudo aquilo que guardava desde cinco anos atrás e que nunca segredara a ninguém:
- Não se pode sobreviver com isso por tanto tempo. Sei, é claro que sei, existem pessoas que estão em situações piores do que eu neste momento, e é pensando nelas que eu encontro um consolo. –um suspiro- Pois bem, sou jovem, mas poderia reclamar por uma vida inteira. Só que não o faço moço, pois só tenho esta, e esta única não deve ser cheia de lamentações e lágrimas.
Ela o olhava com os olhos cheios lágrimas e súplicas e ele a dava segurança, mas não conseguia segurar tudo aquilo que estava dentro dela.
“Desde a minha fecundação eu fui tida como um problema pelo meu pai, que nunca me deu um tratamento de filha e desapareceu das nossas vidas depois de seu maior porre, mas não o condeno por isso. - assim que disse isso, abaixou a cabeça e parecia estar lembrando-se de tudo o que aconteceu, mas a sua expressão não transmitia sentimentos ruins quantos às lembranças - Ah, eu digo ‘nossas’ pois morava com minha mãe também. Ela era o meu porto seguro naquela casa. O que aconteceu com ela? Não sei, isso me traz uma sensação de impotência até hoje. Mesmo que por sua ordem, senti como se a tivesse largado naquela casa invadida pelos refugiados da Segunda Guerra, que sempre vêm parar na Suíça, mas também não os condeno por isso.- outra pausa nostálgica, triste, mas sem rancor algum- E por favor, não pense que estou querendo ser democrática ou a dama da compaixão. Sejamos francos, mesmo que os condenasse, do que adiantaria?”
“Hoje moro com na casa de quatro senhoras, não é bem a vida que pedi a Deus, mas foi a que Ele me proporcionou. E bem, talvez por causa disso eu acredite tanto na providência divina, Ele proverá.”
Só então Lisbeth viu um esboço de expressão no rosto dele, quando ele começou a falar:
- Eu penso que a providência divina não é o melhor para se definir o que tem acontecido com você. Acho que na sua história impera a providência da Guerra, esta que talvez seja a menos impiedosa, mas a que melhor ensina a viver na adversidade.- seu olhar, mesmo inexpressivo, a invadia a alma- E ela, assim como a divina, é irreversível. Não tiro suas razões de estar aqui chorando, sua história é bem triste. Mas acho que seria melhor para você, continuar na linha das suas primeiras frases. Não que eu esteja pedindo para você esquecer tudo o aquilo que te aconteceu e com a tua família também, mas acho que assim que você desabafar tudo, deveria levantar a cabeça e não se submeter a nenhuma providência, faça a sua!
E com esse discurso altruísta, Mihaly deu uma injeção de ânimo e vontade em Lisbeth, ela o abraçou e ele ficou ali, empedernido, mas deitado naquele abraço confortável para ele e reconfortante para ela que já não mais chorava.
Então eles conversaram sobre a Guerra, Hitler e seus objetivos e por um bom tempo não pareciam as crianças que eram,
espero o terceiro. (:
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