Capítulo dois.


Quem não se encantaria pelo menino Mihaly? Lisbeth sentiu uma forte sensação de segurança assim que o viu, apesar de toda a sua inexpressividade. Sentou-se ao lado dela e Lisbeth não hesitou em confiar a ele tudo aquilo que guardava desde cinco anos atrás e que nunca segredara a ninguém:

- Não se pode sobreviver com isso por tanto tempo. Sei, é claro que sei, existem pessoas que estão em situações piores do que eu neste momento, e é pensando nelas que eu encontro um consolo. –um suspiro- Pois bem, sou jovem, mas poderia reclamar por uma vida inteira. Só que não o faço moço, pois só tenho esta, e esta única não deve ser cheia de lamentações e lágrimas.

Ela o olhava com os olhos cheios lágrimas e súplicas e ele a dava segurança, mas não conseguia segurar tudo aquilo que estava dentro dela.

“Desde a minha fecundação eu fui tida como um problema pelo meu pai, que nunca me deu um tratamento de filha e desapareceu das nossas vidas depois de seu maior porre, mas não o condeno por isso. - assim que disse isso, abaixou a cabeça e parecia estar lembrando-se de tudo o que aconteceu, mas a sua expressão não transmitia sentimentos ruins quantos às lembranças - Ah, eu digo ‘nossas’ pois morava com minha mãe também. Ela era o meu porto seguro naquela casa. O que aconteceu com ela? Não sei, isso me traz uma sensação de impotência até hoje. Mesmo que por sua ordem, senti como se a tivesse largado naquela casa invadida pelos refugiados da Segunda Guerra, que sempre vêm parar na Suíça, mas também não os condeno por isso.- outra pausa nostálgica, triste, mas sem rancor algum- E por favor, não pense que estou querendo ser democrática ou a dama da compaixão. Sejamos francos, mesmo que os condenasse, do que adiantaria?”

“Hoje moro com na casa de quatro senhoras, não é bem a vida que pedi a Deus, mas foi a que Ele me proporcionou. E bem, talvez por causa disso eu acredite tanto na providência divina, Ele proverá.”

Só então Lisbeth viu um esboço de expressão no rosto dele, quando ele começou a falar:

- Eu penso que a providência divina não é o melhor para se definir o que tem acontecido com você. Acho que na sua história impera a providência da Guerra, esta que talvez seja a menos impiedosa, mas a que melhor ensina a viver na adversidade.- seu olhar, mesmo inexpressivo, a invadia a alma- E ela, assim como a divina, é irreversível. Não tiro suas razões de estar aqui chorando, sua história é bem triste. Mas acho que seria melhor para você, continuar na linha das suas primeiras frases. Não que eu esteja pedindo para você esquecer tudo o aquilo que te aconteceu e com a tua família também, mas acho que assim que você desabafar tudo, deveria levantar a cabeça e não se submeter a nenhuma providência, faça a sua!

E com esse discurso altruísta, Mihaly deu uma injeção de ânimo e vontade em Lisbeth, ela o abraçou e ele ficou ali, empedernido, mas deitado naquele abraço confortável para ele e reconfortante para ela que já não mais chorava.

Então eles conversaram sobre a Guerra, Hitler e seus objetivos e por um bom tempo não pareciam as crianças que eram, em aparência. Lisbeth sempre tentava saber algo da intimidade de Mihaly que se mantinha de guarda aberta, parecia não querer se envolver muito com a sensível história da garota forte.

A primeira tarde da primavera foi necessária para ver que, por mais que os dois tivessem sofrido pela guerra, Mihaly gostava de viver nela, enquanto Lisbeth fugia de tudo isso.


Thiago Vasconcelos.

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