Capítulo três.

As idas na praça tornaram-se rotina. Mihaly nunca falava de si e isso só aumentava a curiosidade de Lisbeth a seu respeito. Ela falava sobre cada detalhe que lhe restava da sua infância, cada momento que estava presente em sua memória, mas havia algo que ela escondia de todos, inclusive de Mihaly. Agora, os dias iam se passando de forma menos dolorosa para a pequena Schmutz.

Era dezessete de abril e Mihaly passara dias investigando uma parte do passado de Lisbeth, que ela não o contara, para neste dia leva-la até a sua antiga casa, local que ela não pisara mais após o falecer de sua mãe. Ele sabia que ela se sentia frágil quanto aquele lugar, mas também sabia que ela precisava e queria voltar. Nunca retornou lá por falta de coragem.

Eram duas da tarde e, desta vez, Mihaly esperava por Lisbeth no banco de sempre, o banco da primeira vez que se viram. Ele falou com ela antes que pudesse se sentar no banco:

­­­­– Hoje quero andar um pouco nas redondezas. Me acompanha? – disse ele, como na maioria das vezes, em um tom inexpressivo.
– Claro. Mas qual o motivo dessa vontade repentina.
– Não sei. Vamos.

Durante o percurso até a casa abandonada conversaram sobre literatura do século XVIII. Pararam. O silêncio teve início neste momento. Ao ver a casa, Lisbeth baixou a cabeça e deixou uma lágrima escorrer e cair nas pedras que iam da calçada da casa até a porta da frente. Ele foi primeiro em direção a casa e abrir a porta, sem tranca.

A casa era somente térreo. Possuía dois quartos, um banheiro, uma cozinha e uma sala, que ficava logo na entrada da casa. Os quartos e banheiros ficavam em um corredor. As paredes foram pintadas de branco anos antes, mas ficaram cobertas por uma poeira escura. Nada contrastava com nada. Tudo era de um mesmo tom, negro. A garota entrou depois de alguns longos segundos e deixou escorrer mais três lágrimas que ficaram marcadas no chão de madeira. Ela se recompôs e foi, na frente, para o seu antigo quarto. Entrou de uma vez e se surpreendeu com uma caixa vermelha escondida sob a cama. A embalagem era simples, sem nenhuma fita ou enfeite.

Mihaly permaneceu em silêncio e foi buscar a caixa. Ao voltar, viu um sorriso encantador, de dentes perfeitamente alinhados, de Lisbeth. O ambiente ficou menos tenso. Ele estendeu o presente em direção da pequena ruiva. Ele o pegou, abriu e, no mesmo instante, seus olhos encheram-se de lágrimas. Emocionado, Mihaly não conseguiu esconder expressões que jamais estiveram em seu rosto.

Os livros da caixa não tinham semelhança alguma com a história de vida dela. Um deles era uma narração em primeira pessoa que um jovem de vinte e dois anos contava como foi a Segunda Guerra para ele. O outro era um romance do século XVIII. E o terceiro e último, era um best-seller, marco inicial do romantismo, eram cartas de um jovem escritor e pintor que escreveu seus sofrimentos para um amigo.

Lisbeth foi até a cama, deixou a caixa lá e pulou em direção de Mihaly. Mesmo com toda a emoção e alegria havia coisas que deveriam ser esclarecidas:

– Como você descobriu esta casa? – sussurrou Lisbeth quase sem fôlego logo após o longo abraço.

Uma pausa foi necessária para que Mihaly organizar suas palavras. Ele falou com sua típica voz monótona, mas não conseguiu disfarçar o brilho em seus olhos:

– Você não poderia morar muito longe da casa para qual fugiu. A única abandonada nas redondezas era esta e quando entrei na casa e logo depois nos quartos lembrei de você, mesmo que tivesse sido seu há muito tempo. Se não gostou desta pequena surpresa me perdoe. ­– Ele baixou a cabeça.
– Longe disso. ­– Ela levantou a cabeça dele. – Eu amei e obrigada. Estava realmente precisando retornar aqui.

O silêncio estendeu-se por oito, quase intermináveis, minutos. Ela quebrou o silêncio convidando-o para retornar à praça. Ele aceitou, pegou o pacote e foi que saiu primeiro do ambiente negro. No caminho, ouvia-se apenas as folhas das árvores balançando, as vozes das pessoas na rua e os passos de cada um. Chegaram, e pela primeira vez, sentaram-se no banco do lado oposto pelo qual eles costumavam se sentar. Tentaram fazer com o restante do dia pertencesse a outro normal, entretanto não foi. Por mais que ambos estivem, em quase todo momento daquele dia, calados, eles ficaram juntos até as sete e meia da noite juntos. Duas horas a mais do que costumavam ficar. Ele a foi deixar em casa, de mãos dadas. E se despediram com um forte abraço.



Caroline Egyed.


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