Capítulo um.

Lisbeth cresceu com a dor de ter perdido a mãe, Stephanie, durante a Segunda Guerra Mundial. Fora morta por refugiados que queriam a sua casa. A mãe quis lutar pela casa e por sua filha, que ao ouvir a ordem de sua mãe a fez, saindo correndo para uma casa de quatro mulheres que ficava no final de sua rua. Não teve tempo de vê-la com um sorriso no rosto novamente. O pai era um bêbado, cujo Stephanie expulsou de casa quando tal tomou um porre e tentou agredir a filha, que tinha três anos de idade. A garota não tem muitas lembranças dele.

Morou na casa de dame Ester, a mais simpática das quatro senhoras, por sete anos, dos cinco até os doze. A casa tinha dois andares. No térreo, encontrava-se a cozinha, a sala de estar e a sala de jantar. No andar de cima tinham seis quartos e três banheiros. A decoração da casa era rosa com verde. Lisbeth ficou com o segundo menor quarto que era o último do corredor. Ficava em frente de um dos banheiros. O quarto era todo rosa, possuía uma cômoda embutida e uma cama. Era de certa forma aconchegante. A cômoda tinha cinco gavetas, mas só precisou de duas para guardar o pouco que conseguiu carregar e o que ganhara ao chegar a casa.

Lisbeth era, e continua sendo até hoje, envergonhada. Usava franja para cobrir mais o seu rosto. O tom ruivo de seus longos cabelos – que iam até a sua cintura – dava um ótimo contraste com sua pele quase albina coberta de sardas. Os olhos? Cor de mel. A boca rosada e o nariz arrebitado. Era baixinha para a sua idade. Embora a vida seja cheia de problemas, ela sempre procurava enxergar o lado positivo das situações, objetos e pessoas.

Passou a maior parte da infância com imagens da guerra e com sofrimentos alheios. Uma pessoa forte, que não dividia ou compartilhava sua tristeza até conhecer, na primavera de 48, Mihaly Heinz. Ele era dois anos mais velho, mais calado, porém, não mais envergonhado, ao se comparar com Lisbeth Schmutz. Um garoto de doze anos, maturo demais para a sua idade. Era criativo, organizado e pessimista em relação a si.

Dias antes de seu aniversário de dez anos – 17.04.1948 –, Lisbeth foi a uma praça que encontrava-se duas ruas atrás da casa onde estava. Sentou-se em um banco dos doze que ali estavam. Pensou na mãe, nos olhos dela de desespero e começou a chorar. Antes que lhe fosse a chão a primeira lágrima, sentiu uma mão tocando sua face suavemente, enxugando as lágrimas que ali escorreram. A mão era pálida, os dedos finos com as unhas bem tratadas. Mihaly Hering possuía cabelos bagunçados de tom castanho escuro. Os olhos tinham um belíssimo verde como cor e as olheiras de várias noites mal dormidas estavam presentes naqueles olhos totalmente inexpressivos.

Mihaly passou a tarde ouvindo Lisbeth. Ouvindo seus sentimentos, sentindo sua dor. A compreendeu calado. Passaram a ficar, dia após dia, todas as tardes até o fim da primavera juntos. Quando o verão iniciou, Mihaly partiu. Ela não sabia nada sobre ele além do nome. Não fazia a mínima idéia de onde ele vinha, qual era a sua história, nem pra onde ele foi. Suas tardes voltaram a ser solitárias, porém, ela sempre tinha na memória todos os momentos em que Mihaly esteve com ela. Ele ocupava a sua mente fazendo-a esquecer os problemas. Ele a envolvia, mesmo na ausência, das mais estranhas e inexplicáveis maneiras.


Caroline Egyed.

6 comentários:

  1. muito bom! *_* continuarei acompanhando! (Y) - mélia.

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  2. "Como quem chega do nada, ele não me trouxe nada, também nada perguntou...", me pareceu com essa música ^^

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  3. adorei... muito criatiivo ;)
    continuem *-*

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  4. eu adorei! A Segunda Guerra dá uma atmosfera meio triste, mas adorei Mihaly. continuem :*

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